A HISTÓRIA SUBMERSA DA REPRESA DE
LAJES Em 1939, os marcossenses fizeram uma
grande festa para comemorar a decretação de monumento nacional e o bicentenário da cidade. Enquanto isso, a Light ameaçava reduzir a geração de
energia caso a expansão da barragem de Lajes não fosse autorizada. A poderosa companhia canadense, inglesa e americana detinha, além da geração e
distribuição de energia elétrica, os serviços de bondes, ônibus, telefones e gás do Rio de Janeiro.
Parte 5 - O
"destombamento" O governo cedeu à
pressão e ameaças da Light e o presidente Getúlio Vargas entregou a cidade, desconsiderando a decisão do SPHAN e as reivindicações da população. Escandaloso,
foi o primeiro caso de "destombamento" no Brasil. O decreto-lei nº 2.269
(veja aqui)
autorizou a desapropriação urgente de terrenos, prédios e quaisquer benfeitorias que
viessem a ser inundadas.
No contexto autoritário do Estado Novo, a população não teve outra saída que se submeter. Como a desapropriação era
obrigatória, a Light ficou à vontade para ignorar o valor de mercado e avaliar as propriedades conforme a sua própria conveniência. Os moradores
receberam indenizações miseráveis que não lhes permitiram comprar sequer um lote nas cidades vizinhas de Lídice, Rio Claro, Mangaratiba, Itaguaí ou
Piraí.
Para a opinião pública da capital, os jornais descreveram um quadro muito mais favorável que a realidade. Promessas foram feitas e
decretos assinados com o objetivo de garantir a reconstrução da cidade em outro local - e nada foi cumprido.
A desocupação foi cruel: a Light
"indenizava" e imediatamente as pessoas tinham que sair de casa, levando apenas os móveis, em caminhões da empresa. Imediatamente entravam os
operários com marretas e demoliam tudo. O madeirame era empilhado e queimado. Em vão, os moradores pediam para
ao menos levar as madeiras para construírem
barracos em outros lugares.
Nas palavras de Wilson Coelho, vítima da desapropriação: "...olha, a Light (...) era estrangeira, ela
preferia queimar tudo e não dava, não dava um pau, uma 'tauba' pra ninguém. Nem dava, nem vendia, tá entendendo?".
As demolições começaram numa
Quinta-Feira Santa. A população protestou, saindo pelas ruas com cartazes que diziam: "somos 4.600 brasileiros e não queremos desaparecer". De nada
adiantou, as turmas de operários com marretas se sucederam, os prédios próximos da represa foram demolidos por barcos rebocadores com cabos de aço e o
restante dos quarteirões foi reduzido a pedregulhos pela dinamite.
O caso mais traumático foi o da Igreja Matriz. Sua construção datava de
1796, com arquitetura maneirista, típica dos jesuítas, e barroca; seu interior era todo decorado em ouro. Os operários se recusaram a mexer com o
prédio sagrado e a construção era tão sólida que os recursos "normais" de demolição não seriam suficientes.
A Light, então, contratou um
especialista, sr. Dudu, de Rio Claro, para dinamitá-la. Consta que, por coincidência ou maldição, o dinamitador logo depois do serviço ficou
"corcunda" e perdeu tudo, terminando seus dias como jardineiro no colégio de freiras de Valença, RJ.
Como a questão da derrubada da Matriz
despertou o clamor público e a indignação dos católicos, o governo baixou um decreto (3 de junho de 1940) que obrigava a Light a reconstruir o templo
em local próximo e a salvo das águas. Acalmados os ânimos, três anos mais tarde, a empresa se veria livre da obrigação por novo decreto (nº 5.739) que
substituiu a reconstrução da Matriz por uma simples indenização de 600 contos de réis ao Estado.
Apenas o cemitério foi respeitado e
parcialmente transferido para o alto de um morro. São João Marcos finalmente estava extinta, em ruínas. Era hora de levá-la para o fundo das
águas.
(continua...)
Celso Serqueira  | |
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