A HISTÓRIA SUBMERSA
DA REPRESA DE LAJES Pouco antes de ser posto
abaixo, em 1940, o centro de São João Marcos tinha, além da Igreja Matriz, uma antiga capela, pertencente à Irmandade Nossa Senhora do Rosário e
dedicada a São Benedito; dois cemitérios, o da Irmandade e o da Caridade para os pobres; dois clubes, o "Marquense", de elite, com futebol e
danças, e o "Prazer das Morenas", mais popular; um teatro, o "Tibiriçá"; um hospital e uma pensão, além da primeira estrada de rodagem do Brasil,
aberta nos tempos áureos do café. Já não circulava mais o jornal local, "O Município", fechado em 1932. Um pouco afastadas, uma jazida de manganês
inexplorada e uma fonte de água mineral. Parte 6 - O fim
À distância, do alto dos morros, ex-moradores, curiosos e funcionários da Light acampados
precariamente se acotovelavam para verem sumir a terra que um dia abasteceu toda a Europa de café. Pela segunda vez, São João Marcos seria inundada
pelas águas revoltosas e turvas que apagavam os rastros de 200 anos de trabalho, fausto e progresso. A cada dia elas se aproximavam mais do centro da
cidade, e foram subindo, subindo, até que estancaram - sem alcançar as ruínas da demolição.
Logo surgiu o rumor de que os técnicos da
Light haviam errado os cálculos e que a demolição de São João Marcos tinha sido desnecessária, pois a água se nivelara bem abaixo do nível da cidade.
A população começou a se revoltar e, segundo alguns operários da Light contaram depois, a ordem superior veio rápida: "era preciso inundar a cidade, a
qualquer custo!" E quase custou a própria represa, pois foi preciso fechar as comportas e fazer o nível subir além dos limites máximos de segurança da
barragem.
A água apenas molhou alguns centímetros das ruínas de SJM, o suficiente para "justificar" a expulsão dos 5 mil moradores, a
estúpida agressão ambiental e o desaparecimento de dois séculos de nossa história. Desde então, jamais a represa tornou a alcançar a cidade, nem nos
períodos de chuva mais intensa. A brutal destruição de SJM foi mesmo uma burrada de engenharia. Tanto sofrimento por um erro na
prancheta.
Hoje, resta pouco de São João Marcos do Príncipe. Virou local de pastagem. Ainda existem alguns calçamentos em meio ao matagal.
Caminhando pela antiga rua principal, avistam-se algumas ruínas. Uma única ponte resiste, intacta, como se ainda esperasse por passantes. No alto do
morro, o cemitério público; o branco dos túmulos salta entre o verde, lembrando que, num passado não muito distante, aquela cidade teve vida e foi
habitada por algo mais que pequenos pássaros.
O esquecimento está por toda parte, escondido sob cada pedra, nas ruínas e na História. Mas agora
vocês sabem. E isso muda tudo.
ÚLTIMA
PARTE:
fotos
antiga/atual de SJM, créditos, informações turísticasCelso Serqueira  |
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