A HISTÓRIA SUBMERSA
DA REPRESA DE LAJES Desde o início da inundação,
em 1907, e por mais de vinte anos até que a malária fosse erradicada da região, ninguém falou de São João Marcos do Príncipe, foi como se a cidade não
existisse. Ali perto, entretanto, a The Rio de Janeiro Tramway, Light and Power Co. Ltd. operava à plena força a lucrativa Usina de Fontes, sua
primeira grande hidrelétrica, movida pela água da represa do Ribeirão das Lajes.
Parte 4 - A bonança A decadência de S. J. Marcos foi tão forte que, em 1938,
o governo estadual decretou a sua anexação, como distrito, ao pequeno município vizinho de Rio Claro - uma humilhação para aquela que fora a cidade
com maior poder aquisitivo e melhor padrão de vida do País.
Restava na cidade a população mais pobre e simples, que aos poucos
reencontrava a alegria de viver e tentava superar a tragédia. Os carnavais de SJM e as festas do padroeiro ficaram famosas e passaram a atrair
turistas. A cidade renascia. Havia a disputa entre as fanfarras e clubes locais, animando a cidade. Bloco carnavalesco era um só, mas tocavam duas
bandas, a do Maestro Modesto Loyola e a do Maestro Juca Mal. Tinha desfile de carros alegóricos, escola de samba e concurso de fantasias. Fora das
festas, os marcossenses seguiam a vida: plantavam, criavam, (re)construíam e estudavam.
O Rio de Janeiro continuava crescendo e a Light,
na década de 1930, começou a projetar a expansão da represa de Lajes, o que levaria, inevitavelmente, à extinção de S.J. Marcos. Os argumentos que a
companhia, as autoridades governamentais e alguns jornais do Rio de Janeiro utilizavam para justificar a completa destruição da cidade eram:
a) a necessidade urgente de ampliar o abastecimento de água para a cidade do Rio de Janeiro, então Capital Federal;
b) ampliar a
geração de energia elétrica, motor fundamental da industrialização que se iniciava no RJ.
Em 1939, uma reportagem de O Globo informava,
com entusiasmo, que a Light comprara 78 fazendas e algumas casas da cidade, pretendendo adquirir toda a área de São João Marcos para inundá-la. Era o
começo da campanha a favor da expansão da represa. A notícia das verdadeiras intenções da companhia surpreendeu os moradores de SJM, que iniciaram um
desesperado movimento por socorro.
De um lado, a Light, a grande imprensa e os governos estadual e federal queriam destruir a cidade; de
outro, o povo queria preservá-la. Quando tudo parecia perdido, os moradores ganharam um apoio inesperado: o departamento cultural do Estado,
representado por Rodrigo Mello Franco de Andrade, indicou a cidade como "monumento cultural" e exigiu a sua preservação.
A questão
repercutiu na imprensa fluminense e, no mesmo ano, o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - SPHAN, tombou a cidade. Classificada
oficialmente como "raro exemplo intacto de conjunto de arquitetura colonial", São João Marcos finalmente estava salva, fora do alcance da temível
Light. Pelo menos, assim pensava e comemorava o povo, que não conhecia o poder de donos de jornais, da multinacional e do Estado
Novo Obs.:
Recomendo enfaticamente a leitura do curto artigo Memórias da
Corrupção na Imprensa, do Instituto
Gutenberg, sobre as relações escusas da Light com
jornalistas.
(continua...)
Celso Serqueira  | |
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