Dois jornalistas já falecidos registraram em livro as corruptas relações de pelo menos uma parte da imprensa brasileira com a Light — empresa que explorava serviços públicos no Rio e em São Paulo. Mario Hora conta em 48 anos de Jornalismo – Memórias de um “Dromedário”, publicado em 1956 pela Empresa Gráfica Ouvidor, que ficou surpreso ao saber que campanhas contra a companhia eram silenciadas com dinheiro. Samuel Wainer relata em Minha razão de viver, editado pela Record, que a empresa tinha no bolso até o jornal do Partido Comunista. Hora fala do começo do século. Wainer, dos anos 40. A Light foi estatizada em 1979 e novamente privatizada em 1996.
Em 1910, durante a “Revolta do João Cândido”, a Light, por precaução, reteve nas suas estações telefônicas as telefonistas que estavam nos seus postos à hora que a rebelião começou.
Ora, eu tinha duas irmãs e a jovem que hoje é minha esposa, telefonistas. Ao terceiro dia, minha mãe, vexadíssima e preocupada, pediu-me para ir saber o que estava acontecendo com as meninas. Fui e, com visível arrogância, me apresentei como jornalista. Receberam-me com a melhor acolhida, forneceram-me todas as informações que pedi, levaram-me a constatar a segurança, o conforto e os cuidados dispensados às moças e quando me dispunha a deixar satisfeito e tranqüilizado o casarão da antiga Rua Larga, o diretor que me atendeu, um brasileiro americanizado, mandou buscar um grande “dossier” e antes de abri-lo disse-me:
— O senhor como irmão de duas empregadas da companhia podia ter-se apresentado sem alegar a sua condição de jornalista. A Light está habituada a tratar os seus colegas de outra maneira. Veja. E abriu o “dossier”. Nas páginas em branco estavam colados recortes das “campanhas” contra a companhia, com uma anotação final: “Começada no dia tal e terminada em tal dia do ano tal. Pagos, tantos contos.” Ali estavam recortes de vários jornais, jornalecos, revistas e revistecas com as respectivas quantias com que foram silenciados. Era uma clara e vergonhosa chantagem que esteve em moda por muito tempo e serviu de recurso para solucionar as aperturas financeiras de alguns periódicos da época.
Deixei o casarão da Rua Larga com a cara “calçada de vergonha”. Era assim, ressalvadas honrosas exceções, o jornalismo de dois anos depois do meu ingresso. E continuou sendo assim, por processos semelhantes, ainda por alguns anos.
Aos sábados, havia um almoço famoso na casa do superintendente da Light, John McCrimmon — o célebre major McCrimmon, um escocês gordo, enorme, que influiu fortemente na vida política brasileira anos a fio. Receber um convite para esse almoço dos sábados era sinal de altíssimo status: lá podia estar, refestelado numa cadeira, o presidente da República, cercado por ministros, senadores, industriais. Num determinado dia, Chateaubriand [Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados] levou-me à casa do major McCrimmon para que eu contasse ao presidente Eurico Gaspar Dutra, também convidado, como estava Getúlio Vargas. Era impressionante o desembaraço com que Chateaubriand tratava o presidente. Em meio a meu relato sobre as conversas com Getúlio, ele dava gargalhadas e, de vez em quando, tapinhas no traseiro de Dutra (...).
McCrimmon comandava uma empresa que distribuía propinas a todos os jornais da época. Mesmo o jornal do Partido Comunista, A Manhã, recebia uma verba da Light. Os editorialistas mais influentes recebiam diretamente da empresa pagamentos destinados a torná-los dóceis diante das imoralidades que a beneficiavam. As exceções eram raríssimas. Só no dia em que forem abertos os arquivos da Light se saberá até que ponto este país foi corrompido pelo famoso “polvo canadense”, um apelido muito pertinente. Afinal, estavam sob o controle das empresa, naquela época, a luz, o gás, a água, os telefones. Tamanho era o seu poder que conseguiu até mesmo a aprovação de uma lei que lhe permitia mandar seus lucros para o exterior em ouro.
Boletim nº 20, Janeiro-Fevereiro de 1998
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Observação: Infelizmente, o excelente site do Instituto Gutenberg saiu do ar na web. Esta página é uma
cópia que usamos para complementar o artigo sobre o afundamento da cidade de São João Marcos
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