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Mapa das Capitanias Hereditárias, por Luiz Teixeira, ano 1574

 

DEITADO ETERNAMENTE

Parte 3 de 4

Nos planos da monarquia portuguesa, o Brasil precisava de "colonos e cultivadores" e não de "artistas e fabricantes". Por isso, era permitida somente a atividade agropastoril. As pequenas tecelagens e até as poucas fabriquetas de artigos como cordas, pentes e botões foram fechadas. 

Seqüestro das letras

Em 1747, um dos mais importantes impressores de Lisboa, Antonio Izidoro Fonseca, arriscou-se a instalar uma gráfica no Rio de Janeiro, e com apenas três obras editadas foi obrigado a fechar o estabelecimento; a ordem régia assinada em maio do mesmo ano determinou "o seqüestro de todas as letras de imprensa" e proibiu a "impressão de livro ou papel avulso, sob pena de as pessoas envolvidas serem presas e enviadas para Lisboa". A única fonte de informação na colônia eram os livros importados de Portugal, mesmo assim, submetidos à severa censura da monarquia e da Igreja.

Creio que a descrição acima é suficiente para dar uma idéia de como ainda estávamos isolados havia quase 300 anos do Descobrimento. Mas é necessário falar também da Lei Extravagante, de 1749, que terminou ficando conhecida como "Pragmática" e proibiu o luxo dos adornos em vestuários, carruagens, móveis e caixões de defuntos e restringia o uso de espadas, entre outras coisas. A Pragmática determinava que as roupas não poderiam ter "enfeites, bordados, telas, brocados, tissus, galacés, fitas, galões, passamanes, franjas, cordões, espiguilhas, debruns ou qualquer detalhe de prata ou ouro fino ou falso". Até as cerimônias fúnebres tiveram regulados os tipos de madeira dos caixões e o número de velas ou castiçais. 

Brasil medieval

As cidades não podiam ter ostentação e sua arquitetura devia ser despojada e simples, exigência que influenciou a aparência urbana brasileira e lhe conferiu características quase rústicas - o que mais tarde, no século 20, ensejou a reconstrução de algumas capitais em rebuscado estilo parisiense, como o Rio de Janeiro na Reforma Passos. Membros da corte e religiosos ficaram imunes à lei Pragmática, naturalmente.

Um país isolado do mundo, sem educação, privado de informação, impedido de evoluir social, científica e tecnologicamente. Cidades onde as mulheres só podiam sair de casa aos domingos, acompanhadas pelos parentes, para ir à missa. Enquanto o Brasil prostrava-se perante a tirania medieval portuguesa, em 1786, por exemplo, na América do Norte brilhavam personalidades como Benjamim Franklin e Thomas Jefferson; e se aqui o povo ainda engatinhava na leitura de folhinhas de reza e livros de Santa Bárbara (best-seller da época), nos EUA era elaborada a Constituição Americana. Percebe a diferença? 
(continua... )

 
Celso Serqueira