A HISTÓRIA SUBMERSA DA REPRESA DE LAJES Combalidos economicamente e sem o poder político de outrora, os fazendeiros de São João Marcos pouco puderam fazer contra a inundação
de suas terras, a não ser reclamar. Ofícios, atas, moções e comunicados da época retratam o sofrimento dos moradores e mostram com riqueza de detalhes
o desespero das autoridades locais com o início da construção da Represa de Ribeirão das Lajes.
Parte 3 - A inundação, as mortes, o
horror Havia um silêncio compactuado do
governo quando a obra foi liberada para a Light, em 1907. A represa, com capacidade inicial para 224 milhões litros de água, abasteceria de
eletricidade o Rio de Janeiro e dezenas de municípios vizinhos.
A inundação teve início: os morros logo se transformaram em ilhas e uma
centena de fazendas coloniais foi tragada. Os luxuosos teatros, bibliotecas e capelas desapareceram da noite para o dia. Plantações e casas sumiram
sob as águas turvas do Ribeirão das Lajes e seus afluentes. Enormes áreas da zona rural submergiram e muitos caboclos foram pegos de
surpresa.
As águas subiram rapidamente - talvez mais rápido do que o esperado - e alguns milhares de galinhas, cães, vacas, mulas e
carneiros ficaram encurralados. Morreram afogados ou de fome e jaziam apodrecendo na beira d'água. A inundação formou extensas áreas alagadiças às
margens da represa, acumulando grande quantidade de restos orgânicos, e o mau-cheiro se espalhou por quilômetros, durante vários meses.
Nenhuma assistência foi prestada à população rural e nem houve um planejamento tático para a operação. Fecharam as comportas da represa e salve-se
quem puder. As famílias pobres não tinham para onde ir, outras não acreditavam "nessa tal inundação", e ficaram. E morreram.
A falta de
cuidados sanitários fez proliferar a malária, antes restrita a algumas áreas isoladas da região, como Arrozal. A doença espalhou-se e tornou-se uma
terrível epidemia, fazendo sucumbir milhares de pessoas nas cercanias da represa, sem alarde. Metade dos 7.000 habitantes da outrora invejável São
João Marcos foi contaminada pela peste.
Os que restaram foram protagonistas de terríveis histórias, como a presenciada e documentada por
Luís Ascendino Dantas, líder comunitário local:
"... em uma das casas, uma mulher morta tinha em seu colo uma criança que ainda mamava, e a
seus pés outra que chorava."
O relato deixado pelo fazendeiros Agrippino Griecco e Luiz de Souza Breves descreve outras cenas
trágicas:
"No pior período da epidemia, abriam-se valas enormes no cemitério e muita gente ainda viva foi para a cova de cambulhada com
os defuntos. Nos arredores encontravam-se cães devorando cadáveres e achou-se até uma criancinha morta..."
A população pediu
desesperadamente por auxílio, mas nada foi feito. Uma tácita cumplicidade entre o governo, os grandes jornais e a Light, visando o interesse maior do
Distrito Federal, impôs a silenciosa quarentena de duas décadas em que se arrastou a trágica agonia dos habitantes das redondezas de São João Marcos.
Um ato de genocídio que foi, simplesmente, "esquecido" por nossa história.
Os poucos habitantes que resistiram no centro urbano do
município sobreviveram isolados, no mais completo esquecimento, deixados lá para morrer. Suas terras submersas, sua população dizimada pela peste e
sua economia extinta - mas não sua esperança. Ainda havia vida. E haveria mais e maiores tragédias.
(continua...)
Celso Serqueira  | |
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