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ilustração parcial tirada do mapa "East Coast of South America. Brazil, Middle Provinces" ,

A. Fullarton & Co, Londres, ano 1872 - Rio de Janeiro visto da Ilha das Cobras

 

PRETA ROSA, A 'FLOR DO RIO DE JANEIRO'

Parte 4 de 5

Foi graças às visões de Rosa, e para representá-las visualmente, que os franciscanos construíram no Convento do Largo da Carioca a maravilhosa Capela dos Sagrados Corações, embora sem poderem dar os créditos à verdadeira inspiradora: "Santa" Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz (a capela pode ser visitada atualmente).

Madre Rosa era a bola da vez no Rio de Janeiro. Multidões acorriam ao Recolhimento, disputando um olhar, uma palavra, um pedaço de qualquer escrito dela, que ganhava a importância de uma relíquia sagrada. As cerimônias que comandava tinham forte influência ritual africana e pecavam pela liturgia complicada. Ao mesmo tempo em que pitava um cachimbo, comandava a novena, entoava 'Ave Maris Stella' e gingava agitada no altar. Sempre havia algo inusitado nas cerimônias; certa vez, por exemplo, chegou a distribuir bordoadas nos devotos com uma vara de marmelo enquanto estava em transe, noutra tirou os santos dos altares e deu-os aos fiéis. Fizesse o que fizesse, sempre causava admiração e fazia engrossar seu poder e prestígio.

Com o tempo, não apenas ela, mas também suas recolhidas - as "freirinhas" - entravam em transe diariamente e o seu companheiro, o padre Xota-Diabos, alçado à condição de Capelão do Recolhimento, zelava por todas. Um dos produtos mais disputados pelos fiéis era uma espécie de biscoito feito com a saliva da Madre Rosa e farinha, que teria o poder de curar qualquer enfermidade. Os cariocas eram invejados por terem sua própria santa e retribuíam idolatrando-a.

Os problemas começaram a partir de 1756, quando Rosa profetizou que o Rio de Janeiro seria inundado e destruído do mesmo modo como acontecera no ano anterior com Lisboa, atingida por um terremoto. Dezenas de famílias abrigaram-se no Recolhimento, convencidas de que só ali sobreviveriam ao dilúvio. Ela ainda afirmou que o prédio se transformaria milagrosamente na Arca dos Cinco Corações, para cruzar o oceano e encontrar-se com Dom Sebastião, desaparecido quando guerreava no Marrocos; e que esse rei a tomaria como esposa e juntos conceberiam um filho que seria o novo Redentor da Humanidade. (nota: esta "visão" é a coisa mais próxima do famoso "Samba do Crioulo Doido" que eu já ouvi)

Nem foi tanto por seus vaticínios não realizados, nem por seus exageros e loucuras que a nossa Madre Rosa começou a decair; seu erro indesculpável foi indispor-se com o clero carioca quando repreendeu publicamente alguns sacerdotes que conversavam durante as missas. Os padres reclamaram com o bispo e a situação piorou quando ela expulsou com violência uma senhora da sociedade que riu alto no interior da Igreja de Santo Antônio. Uma preta até podia ser santa, mas desacatar uma dama de cor branca, de jeito nenhum!   
(continua... )

 
Celso Serqueira