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Rosa-dos-Ventos de "Roteiro de Guine, Costa da Malagueta, Mina, São Thome & Angola", 

provável autor Gaspar Bouttats, ano 1770

 

PRETA ROSA, A 'FLOR DO RIO DE JANEIRO'

Parte 5 de 5

Iniciou-se uma campanha de desmoralização de Madre Rosa e surgiram dezenas de denúncias de suas excentricidades e êxtases. Em fevereiro de 1762, foi formalizada a denúncia de que era uma pessoa tomada pelo demônio, que agredia seus devotos, que os escritos dela eram forjados pelo padre Francisco Lopes e muita coisa mais.

E foi tanta coisa mais, que ela e o padre Xota-Diabos ficaram recolhidos por um ano no aljube (prisão) carioca e depois levados ao Tribunal da Inquisição, em Lisboa, em 1763. Aos inquisidores, o padre e amásio alegou ter sido enganado pela negra, ser pouco versado em teologia e ter confiado nos franciscanos cariocas que aprovaram os fenômenos. Pediu perdão e foi condenado ao degredo por cinco anos na região sul do Algarve, perdendo o direito de confessar e exorcizar.

Rosa, entretanto, sustentou nos interrogatórios que sempre fora sincera e autêntica. Insistiu que suas visões foram reais e que ela acreditava mesmo ser uma predestinada a trazer ao mundo a sabedoria de Deus. Em vão, os inquisidores tentaram fazê-la confessar que era uma embusteira. 

No dia quatro de junho de 1765, ocorreu a última sessão de perguntas à Preta Rosa, e ela respondeu relatando umas de suas visões, em que se denominava "abelha-mestra recolhida no cortiço do amor". A partir dessa data, nada mais existe registrado sobre ela. Dos mais de 1.000 processos de feiticeiras, sodomitas, bígamos, falsas santas e blasfemos pesquisados, não há qualquer outro sem conclusão, apenas o de Madre Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz.

Misteriosamente, o processo dela tem como última página este registro costumeiro do notário do Santo Ofício: "Por ser avançada a hora lhe não foram feitas mais perguntas, e sendo lidas estas anotações e por ela ouvidas e entendidas, disse estar escrita na verdade, e assinou com o Senhor Inquisidor, depois do que foi mandada para o seu cárcere".

Há quem ache que a Flor do Rio de Janeiro morreu esquecida numa masmorra em Lisboa; outros a têm como torturada e degradada no Algarve; eu prefiro imaginar que ela foi levada da cela pelo Sagrado Coração, atravessou o oceano e encontrou o seu amado Rei D. Sebastião. E que foram felizes para sempre nas dunas do Marrocos.

FIM

Fontes principais

Rosa Egipcíaca: Uma Santa Africana no Brasil Colonial, de Luiz Mott, Cadernos IHU - Unisinos

A Presença Do Elemento Sudanês nas Minas Gerais, de Francisco Vidal Luna e Iraci del Nero da Costa - FEA-USP

O Rio de Janeiro Setecentista, de Nireu Cavalcanti - Zahar Editora

 
Celso Serqueira