PRETA
ROSA, A 'FLOR DO RIO DE JANEIRO' Parte
3 de 5 Nem bem tinham se acomodado na nova casa no Rio de
Janeiro, em frente à Igreja de Santa Rita (atual Rua Visconde de Inhaúma), as visões recomeçaram; a primeira foi na Igreja de N. Sra. da Lapa, quando descreveu o Menino Jesus vestido de azul celeste usando uma tiara pontifícia e caiu desmaiada.
Socorrida por beatas, Rosa relatou seus dons a elas e, em poucos dias, estava perante o Provincial dos Franciscanos, o Frei Agostinho de São José, que assumiu a sua direção espiritual e a abrigou no Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca. A devoção mística de Rosa era exemplar: jejuns prolongados, autoflagelação, uso de silício, novenas intermitentes, comunhão freqüente. Impressionados, os franciscanos lhe dedicaram o título de "Flor do Rio de Janeiro".
Neste ponto, cabe uma explicação: em meados do século XVIII, a Igreja Católica procurou atrair para seu domínio a enorme população negra dos países escravistas. Para isso, estimularam o culto a São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia, Santo Antônio de Noto (ou Catigeró) e ouros, todos modelos negros de santidade.
Portanto, a chegada da agora "beata" Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, ex-prostituta como sua patrona Santa Maria Egipcíaca, vinha a calhar neste momento e poderia redundar até mesmo numa nova atração. E acolher uma santa, era sabido, trazia romarias, fiéis
e doações e garantia o pagamento das velas e demais despesas de atos litúrgicos e do próprio convento. Estava pronto o terreno para a ascensão meteórica da primeira santa carioca e brasileira.
Nova visão mística tida logo após chegar ao Rio determinou que Rosa aprendesse a ler e a escrever, o que ela conseguiu com bastante esforço, sagrando-se a primeira negra alfabetizada do país. Outra inspiração sobrenatural a levou a fundar um recolhimento para "mulheres da vida" que quisessem, como ela, trocar o amor dos homens pelo do "Divino Esposo".
Com o dinheiro doado por um sacerdote de Minas, profundo admirador de Rosa, e com a recomendação do bispo carioca D. Antônio do Desterro, em 1754 foi instalada a pedra fundamental do Recolhimento de Nossa Senhora do Parto,
na Rua São José, esquina de Rua Rodrigo Silva, junto a uma pequena capela na Rua da Assembléia, em frente ao Largo da
Carioca (nomes atuais dos logradouros). Após erguido, o Recolhimento abrigou pouco mais de vinte mulheres que passavam o dia em trabalhos internos e recitando liturgias. O local era sustentado por doações.
Neste momento da história, os crescentes devotos da nossa heroína já a chamavam de "Madre" Rosa e as visões dela ficavam cada vez mais sofisticadas; tudo era ditado para que as assistentes escrevessem o que ela transmitia vindo dos anjos, dos santos, da Maria Santíssima ou da própria boca de Deus. Não apenas o povo, mas também os religiosos idolatravam a ex-Preta Rosa, principalmente o seu confessor, padre Francisco Gonçalves Lopes, e um dedicado capuchinho italiano.
Foi sob a supervisão deles que escreveu mais de 250 folhas do livro "Sagrada Teologia do Amor de Deus Luz Brilhante das Almas Peregrinas". Nele, ela conta que o Menino Jesus vinha todo dia mamar em seu peito, que Nosso Senhor trocara de coração com ela, que Deus a tinha denominado Mãe da Justiça, cabendo a ela decidir o futuro de todas as almas - céu ou inferno. No momento de maior inspiração, confessou ser ela própria a esposa da Santíssima Trindade, a nova redentora do mundo.
Longe de chocar seus diversos diretores espirituais, todos da Igreja, essas revelações insólitas fizeram aumentar o seu prestígio e a adoração popular. A ex-escrava, agora Madre do Recolhimento do Parto, foi a principal vidente e divulgadora em terras brasileiras do culto aos Sagrados Corações, que fora iniciado seis séculos antes na França. Só que nossa "madre" e seus conselheiros católicos exageraram um pouco, propagando não apenas a devoção oficial aos sagrados corações de Jesus e Maria, mas também dos corações de São José e dos avós de Cristo, São Joaquim e Santana - toda a família do Nazareno.
(continua... ) Celso
Serqueira  | |
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