PRETA
ROSA, A 'FLOR DO RIO DE JANEIRO' Parte
2 de 5 Rosa ficou fascinada
pelo "exorcismo" e achou ter encontrado a solução para o seu sofrimento: teve um ataque perante o padre Xota-Diabos e, contorcendo-se, confessou estar possuída por sete demônios. Consta ainda nos livros da Igreja que ela
se levantou num certo momento e garantiu que era Lúcifer quem lhe causava os inchaços no rosto e no ventre. Segundo
seu relato posterior, "vi e senti que do ar me deitaram um caldeirão de água fervendo, com o que cai logo desacordada, e, quando me restitui, me achei lançando sangue da cabeça, que estava rachada e metida aos pés de São Benedito".
Noutra oportunidade, na mesma freguesia, pôde o sacerdote confirmar que "de fato, a escrava era uma possessa especial, pois quando vexada (lúcida), fazia sermões edificantes, sempre preocupada que todos mantivessem perfeita compostura nos templos, retirando à força para a rua a quantos conversassem ou desrespeitassem a presença do Santíssimo Sacramento".
E comparou: "Quando possuída por Satanás, falava grosso, caía desacordada e dizia ter visões celestiais, vendo por diversas vezes Nossa Senhora da Conceição, ouvindo diversos coros de anjos que lhe ensinaram algumas orações, recebendo até a revelação de uma fonte de água milagrosa ao pé de uma montanha, onde devia ser construída uma igreja em honra da Senhora Santana".
Muitas eram as mensagens e avisos que Rosa transmitia quando em transe. Os exorcismos passaram a ser feitos diariamente, cada vez com maior afluxo de gente, e ela começou a ser vista não mais como uma "endemoniada", mas como "espiritada". A fama da visionária e do exorcista Xota-Diabos espalhou-se pelas Minas Gerais. Certa vez, em São João Del Rey, Rosa irrompeu na Igreja do Pilar durante a pregação de um capuchinho, gritando que ela era Satanás. Detida, foi flagelada no pelourinho de modo tão cruel que ficou para o resto da vida com o lado direito do corpo semiparalisado.
Mas ela não se deu por vencida e, enquanto esteve presa, disse receber a visita de Santo Antônio em pessoa. Ao recuperar-se da surra, Rosa procurou o Bispo de Mariana e alegou ter sido injustiçada. Foi composta uma junta de teólogos para estudar o caso e concluir se ela estava mesmo possuída ou se era uma farsante. A escrava visionária foi submetida a várias provas, inclusive uma que consistia em suportar a chama de uma vela acesa embaixo da língua, teste em que ela fracassou porque não resistiu mais que "apenas" cinco minutos. A comissão concluiu, então, que ela era uma embusteira. A reação popular foi imediata e na rua começaram a agredi-la e xingá-la, chamando-a de feiticeira. Rosa e seu exorcista Xota-Diabos (que a essa altura comprara a liberdade dela) resolveram fugir para o Rio de Janeiro e tentar vida nova.
Diferentemente de quando saiu do Rio para Minas, a pé, passando fome e frio ao atravessar as montanhas, agora a nossa aventureira africana vinha bem agasalhada, a cavalo, dormindo em estalagens e intercalando momentos místicos de visões celestiais com ocasiões de prazer carnal, já que o padre exorcista tornara-se seu amante.
Chegaram ao Rio em abril de 1751, contando a cidade com quase 8 mil casas, 30 mil habitantes, 23 igrejas, 70 oratórios, 26 confrarias, 380 frades e pouco mais de 100 padres seculares. Uma verdadeira metrópole, que tinha em Nossa Senhora de Santana a sua padroeira principal. Para uma sociedade de tamanha importância, era necessário um nome à altura: a vulgar Preta Rosa ressurge, então, com o pomposo nome de Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz.
(continua... ) Celso
Serqueira  | |
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