CANIBALISMO, ASPECTO MACABRO DA
HISTÓRIA
Parte 3 de 5
Entre os selvagens brasileiros, a justificativa romântica para o canibalismo - incorporar a coragem do inimigo - até pode ser
aplicável em raros casos, mas o que prevalecia mesmo eram o gosto pelo churrasco humano e o sentimento de vingança pelo inimigo. Uma grave ofensa ou
ameaça era olhar para alguém e fazer o gesto de morder o próprio braço; isso significava, mais ou menos, "vou pegar você e comer
todinho!".
Em várias aldeias, principalmente dos tupinambás, a carne humana era estocada como alimento e a vítima mantida presa e sob
engorda por semanas ou meses. Mas nem sempre se esperava para consumir a criatura. Durante lutas entre tribos, havia casos de canibalismo logo após a
captura do inimigo, para saciar o apetite dos guerreiros e suas famílias. E como os nossos índios apreciavam muito a carne humana, volta e meia
invadiam outras aldeias exclusivamente para obter o petisco.
O alemão Hans Staden naufragou em Itanhaém, em 1553, e ficou aprisionado
durante nove meses na aldeia do cacique Cunhambebe, na região de Mangaratiba, Rio de Janeiro. Seu livro "Viagem ao Brasil" documenta ricamente esses e outros aspectos do canibalismo e é leitura
recomendada, assim como "Viagem à Terra do Brasil", de Jean de Léry, que acompanhou Villegaignon na implantação da França Antártica no Rio
de Janeiro.
Deve-se levar em conta a forte influência religiosa sobre os autores dos relatos; Hans Staden, por exemplo, credita a
repetidas intervenções divinas o fato de não ter sido devorado pelos nativos. Lógico: em tempos de fanatismo religioso, Staden não seria tolo de
escapar da churrasqueira dos índios para se arriscar a cair na fogueira da
Inquisição. (continua...)
Celso Serqueira | |
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