PASSEANDO NAS ESTRADAS REAIS [2] O FANTÁSTICO CAMINHO DO PEABIRU Não podemos falar das trilhas de São Paulo
sem retroceder ao misterioso Caminho de Peabiru, que ligava o Peru ao Oceano Atlântico atravessando a Bolívia, o Paraguai e o Brasil. Um de seus
principais acessos era em São Vicente, pela Trilha dos Tupiniquins.
Muito antes da chegada de Cabral, os indígenas possuíam
caminhos próprios ligando os oceanos Atlântico e Pacífico. Havia pontos de acesso em São Vicente e Cananéia, e ramais no litoral de Santa Catarina e
do Rio Grande do Sul. Somavam mais de cinco mil quilômetros de estradas que se integravam à grande Trilha Inca, um rede viária que alcançava todos os
quadrantes da América a partir dos Andes e era utilizada desde o século VIII. O maior desses
caminhos era o de Peabiru, que começava em São Paulo, na região da atual rua da Consolação, cruzava a Paulista e descia na direção da avenida
Rebouças. Passava por um lugar cheio de perdizes (daí o nome do bairro), depois por uma floresta de araucárias, cruzava o rio Pinheiros e ia direto
até Cuzco, terra das minas de prata. Há referências a caminhos semelhantes nas regiões norte e nordeste do Brasil.
O nome indígena
significa pe [caminho] e abiru [gramado amassado], uma referência a uma planta (puxa-tripa) que gruda nos pés e ainda existe na região. Outras
características da estrada eram o leito profundo em um metro e largo em quase três metros, além de inscrições rupestres, mapas esculpidos em pedras,
relógios de sol e vários símbolos astronômicos de origem inca pelo percurso. Os jesuítas
batizaram a estrada de "São Tomé" e a usaram para doutrinar índios e erguer reduções pelo Paraná; o espanhol Alvar Nunez Cabeza de Vaca
seguiu uma de suas derivações e "descobriu" em 1542 as Cataratas de Iguaçu; em 1531, Pero Lobo fracassou em sua expedição pela rota; e Ulrich Schmidel
passou por ela em 1553. O náufrago português Aleixo Garcia, com 2 mil índios flecheiros, usou o caminho para saquear prata, ouro e estanho do Império
Inca, numa expedição que, em 1525, atingiu o Peru bem antes que o espanhol Pizarro o fizesse navegando pelo Oceano Pacífico. Bandeirantes paulistas,
como Raposo Tavares, trilharam o Peabiru para atacar as missões jesuíticas.
Os espanhóis foram rápidos em penetrar o interior bravio da
parte do território sul-americano que lhes coubera pelo Tratado de Tordesilhas e, nessa empreitada, tiveram os indígenas locais como guias. Partindo
de Santa Catarina, os espanhóis seguiram o caminho para chegar ao Paraguai e fundar Assunção (1537) e a Estância do Paraguai, que incluía o território
catarinense, nomeando seu primeiro governador, Juan de Sanabria. Ainda em meados do século XVI instalaram-se missões jesuíticas no
Paraguai.
Devido ao movimento crescente na Trilha do Tupiniquim, em São Vicente, que dava acesso ao Caminho do
Peabiru, Tomé de Souza
proibiu o trânsito nessas vias em 1533, ameaçando com a pena de morte aos infratores. O objetivo foi controlar principalmente a entrada de espanhóis
para as terras do sertão, ricas em minérios que deveriam ser preservados para Portugal. O
Peabiru foi de suma importância, seja pelo traçado que cortava o continente, seja pelas personagens que por ele transitavam, ainda que considerado
somente o período pós-Cabralino: soldados, sacerdotes, aventureiros, indígenas e escravos - os artífices de nossa América. O caminho foi redescoberto
na década de 1970 e a Universidade Federal do Paraná vem trabalhando para tornar os trechos remanescentes em atração turística, a exemplo da Estrada
Real mineira.
Na próxima postagem, focaremos os caminhos mais recentes do litoral para São Paulo. Quem tiver interesse nas muitas
concepções místicas do Caminho do Peabiru, terá farto material para pesquisa na web. (continua...)
Celso Serqueira
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