CERVEJA COM CAFÉ, GUARANÁ COM VINHO
[1] No dia 24/01/2006, o café Bourbon produzido em Carmo de Minas, MG alcançou o maior
valor em um leilão internacional de grãos especiais. A saca foi vendida por 6,5 mil dólares, uns R$15 mil, e os lotes foram comprados pelo Canadá e a
Austrália. Aí você pergunta: "e eu com isso?".
Bem, se você bebe cerveja, aprecia um bom vinho, saboreia um cafezinho e acha o
guaraná estimulante, tem muito a ver, sim. Pra entender esta miscelânea, basta acompanhar a história resumida de um dos maiores cientistas do mundo no
século 19 - Pereira Barretto - mais um fantástico brasileiro pouco lembrado pela historiografia oficial.
Origem
Luiz Pereira
Barretto era de uma tradicional família de cafeicultores no século XIX em Nossa Senhora da Conceição do Campo Alegre da Paraíba Nova, a atual Resende,
no Vale do Paraíba fluminense, à beira da Rodovia Rio-São Paulo.
O pai de Barretto foi uma personalidade avançada para a época, usando a
sua fazenda Monte Alegre como um campo de demonstração prática da adaptação das terras às novas culturas, como a exploração do plantio de chá, a
experimentação do café Bourbon, a plantação de tabaco e outras culturas inovadoras.
Luiz formou-se em Medicina na Universidade de Bruxelas, na
Bélgica, e retornou ao Brasil em 1864. Positivista integral, publicou três obras sobre o tema. Uma de suas cartas ao amigo de Pierre Laffitte,
discípulo de Auguste Comte, na França, apresenta um cenário brasileiro que bem poderia ser o de hoje:
"As câmaras legislativas estão no
auge do descrédito e o clero, em desordem, só continua a subsistir pela tolerância da população que não encontra coisa melhor. Os padres são
ignorantes e de sórdida falta de vergonha. Só fazem destruir os bons resultados da influência dos Jesuítas".
A Caravana Pereira
Barretto
Considerado o primeiro agrônomo do Brasil, em 1876 Pereira Barretto pressentia que o café no Vale do Paraíba estava com os seus
dias contados pela exaustão das terras. Começou a publicar uma série de artigos na imprensa paulista, propondo o oeste do estado, com sua terra roxa,
como novo campo de ação da cafeicultura brasileira.
Foi o começo do êxodo por parte dos cafeicultores do Vale do Paraíba, sobretudo de Resende,
que até então fora principal região cafeeira do Brasil (em 1860, a produção fluminense alcançava 78% do total nacional, a paulista chegava a 12% e
Minas Gerais com o restante do país, 10%).
Verdadeira expedição conquistadora se deslocou de Resende ao Oeste Paulista. Partindo em janeiro de
1876, os Barrettos atravessaram serras, vales, rios e florestas, até chegarem à Casa Branca, em São Paulo, onde adquiriram 800 alqueires de terra da
Fazenda Cravinhos, que deu origem à cidade de mesmo nome e, depois, a Ribeirão Preto. Em toda aquela região, derrubaram e queimaram milhares de
florestas nativas para dar lugar ao café, utilizando mão-de-obra de caboclos e imigrantes europeus.
Um dos motivos do sucesso da cafeicultura
paulista foi a introdução da espécie "Bourbon", desenvolvida em Resende por Pereira Barretto, a partir do cruzamento de mudas dos cafés "Libéria",
trazidas da África, e "Typica" mediante fecundação artificial, num processo pioneiro de aprimoramento genético induzido. As sementes foram levadas de
Resende para Cravinhos e, ao fim de três anos, os Barrettos possuíam as mais famosas lavouras da região do excelente café Bourbon - este mesmo que foi
considerado o melhor do mundo em janeiro de 2006.
(conclui no próximo artigo, com cerveja, vinho,
guaraná...)
Celso Serqueira  | |
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