DESCONSTRUINDO O RIO (Parte 1 de
2) Tido como o grande mentor e realizador das obras que transformaram o Rio em Cidade Maravilhosa, o prefeito Pereira Passos talvez não mereça tanto ôba-ôba. Se fosse hoje, é quase certo que estaria
encrencado numa CPI e sendo investigado pelo Ministério Público. No início do século 20, o Rio de Janeiro era composto por sobrados e casarões em vielas e ruas sujas e estreitas, no pior feitio urbano português. A imundície era unânime e o fedor de lixo e esgoto tão intenso que os estrangeiros evitavam ao máximo visitar a capital, enojados e receosos de se contagiarem por alguma doença grave.
Os novos governantes do país - agora uma república - queriam modernizar a cidade, colocá-la ao nível das grandes capitais mundiais e, ao mesmo tempo, descaracterizar a procedência portuguesa (e imperial) da sua construção. Seria preciso mudar não apenas a paisagem, mas o próprio povo carioca - feio, sujo, ignorante e desocupado. Como fazer isso rapidamente? Quem seria capaz de tal façanha?
O engenheiro Passos
Filho de um rico barão do café da afogada São João Marcos, RJ (veja a história desta cidade
aqui
), Francisco Pereira Passos em 1857 foi designado adido em Paris, onde aproveitou para formar-se em Engenharia e pôde testemunhar a Reforma Haussmann, que destruiu as casas populares nos bairros mais populosos de Paris para construção de largas avenidas e prédios imponentes em 1870.
De volta ao Brasil, ainda no tempo do Império, sua amizade com o Barão de Mauá lhe valeu a encomenda de serviços importantes e a nomeação para cargos elevados no governo. Em 1874 participou de uma comissão do governo imperial que deveria apresentar um projeto de reforma urbana para a capital, mudança que era desejada desde meados do século 19.
Nos dois anos seguintes, o grupo fez um levantamento urbanístico minucioso e propôs uma reforma ampla, com alargamentos de ruas, construções de grandes avenidas, arrasamentos de morros, canalizações de rios e mangues e outras medidas extremas. Talvez por mexer tanto com
a gente da cidade, o plano foi arquivado. Quem
fez o quê?
"Reforma Passos". Soa bonito e imponente, mas as maiores obras daquela época, paradoxalmente, não foram responsabilidade do engenheiro Passos.
E tampouco foi dele, mas da comissão federal de 1874 o projeto básico que ele usou para fazer a "sua" reforma do Rio, de 1903 a 1906, após ser nomeado prefeito da capital. O que Passos fez foi
basear-se na Reforma Haussmann que vira em Paris. A intenção, declarada por ele, era transformar a capital numa esplendorosa Paris dos trópicos, renegando os traços coloniais portugueses e a cultura nacional brasileira.
Também a criação da Av. Central (hoje Av. Rio Branco), que consta como uma de suas maiores obras, não foi feita por Pereira Passos, mas pelo governo federal, a partir de uma proposta de Giuseppe Flogliani em 1884, aperfeiçoada por Bernard Savaget em 1890 e, finalmente, construída em 1906 pelo presidente Rodrigues Alves.
Aliás, as maiores e mais importantes obras - modernização do porto, construção das avenidas Central e do Mangue e saneamento - foram assumidas pelo governo federal. Para o prefeito Passos ficou a "maquilagem": demolição do casario, abertura de poucas ruas, alguns alargamentos de logradouros e embelezamento de praças.
Sem dúvida, o maior serviço executado pelo engenheiro foi derrubar mais de 1.600 prédios residenciais do Centro para realizar a reforma. Os moradores foram despejados e, sem opção, iniciaram o surto das favelas cariocas, instalando-se desordenadamente no Morro da Favela (hoje da Providência). Começam
as denúncias
Nas palavras da comissão federal que apurou o escândalo social, o prefeito Pereira Passos forçara a população a "ter a vida errante dos vagabundos e, o que é pior, a ser tida como tal", indo abrigar-se numa "pujante aldeia de casebres e choças, no coração mesmo da capital da República, a dois passos da Grande Avenida". Lembra-se de que queriam mudar a paisagem e o povo carioca? Pois é. Fizeram! A
imprensa da época descreve uma realidade urbana absolutamente
diferente da apresentada pela historiografia oficial. Os
problemas sociais, como o da habitação popular, foram
desprezados pelo governo e o caos tomou conta da cidade. O ano
de 1906, longe de ser auspicioso, foi catastrófico,
culminando com o desabamento do prédio do Clube de
Engenharia, que acabou com o mito da engenharia brasileira. Com
o aumento das obras, as acusações subiam de tom,
afirmando que Pereira Passos não era apenas negligente com as
necessidades do povo; ele colocava seus interesses
particulares acima da própria ética e honestidade. Por
exemplo, o Jornal do Commercio denunciou, na época, que a
construção da Av. Beira-Mar foi interrompida na altura do
Obelisco porque... a serraria do prefeito estava no
caminho! E interrompida ficou. continua...
Celso
Serqueira  | |
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