Paraguai, o futuro que destruímos
(parte 3 de 4)
O Tratado da Tríplice Aliança entre o Império
do Brasil, a República Argentina e a República Oriental do Uruguai foi secretamente engendrado um ano antes de sua publicação. A farsa tornou-se
pública na época, e vários países protestaram - inutilmente - contra o plano premeditado de destruir e partilhar o Paraguai¹.
Os brasileiros
usaram um tratado de ajuda militar mútua entre o Uruguai e o Paraguai como estopim da guerra, invadindo o Uruguai e depondo o seu presidente. A reação
foi inevitável: enquanto sitiávamos Montevidéu, o paraguaio Francisco Solano López entrou na província de Mato Grosso e depois na província argentina
de Corrientes, visando chegar a seus aliados uruguaios e socorrê-los da agressão brasileira.
O Paraguai tinha o melhor exército dentre os
envolvidos no conflito, e saiu-se vitorioso no primeiro ano dos combates. Foi então que a oportunista Inglaterra emprestou dinheiro ao Brasil para
comprar - dos próprios ingleses - milhares de armas e 49 navios de combate velhos, quase sucata. Os argentinos, sentindo a superioridade do exército
guarani, logo abandonaram as campanhas, alegando que os soldados se recusavam a lutar ao lado dos "macacos" brasileiros². O Uruguai pouco atuou no
conflito, até porque estava dominado pelas forças brasileiras. Restou ao Brasil, portanto, assumir praticamente sozinho os últimos quatro anos da
guerra.
Adotamos uma política genocida contra os paraguaios - a ordem era barbarizar, exterminar a raça guarani. No Paraguai, o dia 16 de
agosto é o Dia da Criança. Em vez de festa, sorrisos e alegrias, a data evoca a Batalha de Acosta Ñú, onde mais de 3.500 crianças foram degoladas
pelos soldados brasileiros. Comandando a matança, Conde D`Eu ainda mandou incendiar o matagal cheio de meninos feridos e agonizantes. Na missão de
destruir o país inimigo, os aliados contaminaram as águas dos rios com cadáveres, queimaram um hospital com dezenas de enfermos, degolaram milhares de
crianças e estupraram mocinhas guaranis antes de matá-las.
Notas ¹(Milanesi 2004, apud Mocellin 1985 e Chiavenato
1998) ² O termo fazia referência ao predomínio dos negros nas tropas brasileiras. Até hoje, somos chamados de "macaquitos" pelos argentinos
e paraguaios
(continua...)
Celso Serqueira  | |
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