O RIO ATRÁS DA MURALHA (parte 3 de 3: A
Rejeição) A reação da população foi expressiva. A principal
crítica era de que a muralha não servia para defender a cidade, pela sua pouca altura e localização indevida. O Morro de Santo Antônio ficara fora da
área protegida e, se um inimigo o tomasse, lá de cima poderia bombardear facilmente a cidade; teria também total controle sobre o aqueduto e o
chafariz da Carioca, principal meio de abastecimento de água. E se a cidade fosse sitiada por algumas semanas, a população morreria de fome, porque
João Massé não previu áreas para plantações e criações.
Como se isso não bastasse, o novo amuralhamento redefiniu o que era considerado cidade
e o que se entendia como arrebalde. Importantes áreas de expansão urbana repentinamente se transformaram em periferia e perderam muito de seu valor. O
Morro do Castelo, que ficou externo ao novo traçado, perdeu de vez o status de centro, tornando-se zona morta e desprezada. Por outro lado, áreas
próximas da Capela de N. S. do Rosário, antes consideradas arrebaldes, ganharam súbita valorização por sua proximidade com a muralha.
Para
piorar as coisas, o engenheiro francês idealizou uma faixa de terreno livre circundando a muralha, onde era proibido construir. A Câmara de
Vereadores, que sofria com a baixa arrecadação de foros sobre seus terrenos, viu-se ainda mais prejudicada e embora não pudesse opor-se abertamente à
obra - que fora autorizada pelo rei - passou a sabotá-la sorrateiramente, estimulando a população a construir nas áreas proibidas e a derrubar porções
da muralha.
Em pouco tempo, tornou-se prática comum a retirada de pedras da muralha para construção de casas particulares. A situação era tão
caótica que um padre jesuíta, Gabriel de Malagrida, teve a ousadia de enviar uma carta ao governador, em 1756, solicitando autorização para retirar
400 braças (880 metros!) de pedras como doação para construir um novo seminário na cidade. O pedido foi negado. Quanto às faixas de segurança em torno do muro, a população passou a construir suas casas tão próximas a ele que muitas delas o
tinham como parede. Paradoxalmente, a muralha de João Massé, projetada para defender a cidade contra os invasores, acabou sendo relegada e destruída
pelas autoridades e população que objetivava defender. Foi tragada pela urbe.
Bem que o governador Vahia Monteiro, em 1726, tentou convencer a
Corte a construir não apenas a muralha, mas um largo fosso com água, que iria do Mangue até o Passeio Público, transformando o centro e as terras
adjacentes em uma ilha. Sua proposta não foi aceita. Em 1769, o vice-rei Marquês de Lavradio solicitou novos estudos a três especialistas - Jacques
Funck, João Roscio (mapa acima) e José Custódio de Farias - para reestruturar a muralha do Rio de Janeiro e projetar um canal defensivo, se fosse o
caso. Todos apresentaram propostas bem mais abrangentes que o fiasco de João Massé, mas
nessa altura a Coroa estava mais preocupada com as fronteiras no extremo sul do Brasil e com a Colônia de Sacramento, e foi para lá que direcionaram
os investimentos, deixando o Rio de lado.
Uma planta do Rio de janeiro, de 1767, feita pelo sargento-mor Manuel Vieira Leão, não registra
nenhuma indicação de muralha, levando a crer que nessa época ela já estivesse completamente descaracterizada, absorvida pela expansão imobiliária ou
simplesmente demolida.
Celso Serqueira  | |
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