BONITINHO E NADA ORDINÁRIO!
Sabe o preconceito de que mulher bonita
não tem conteúdo intelectual? Pois o mapinha acima sofre a mesma injustiça: um monte de gente o acha bonitinho, nada mais. São comuns reproduções dele
servindo de decoração em abajur e descanso de copos, mas é raro encontrá-lo nas escolas. Vamos pesquisá-lo? O nome do mapa nos dá uma pista de sua relevância: "Primeira Carta
Portuguesa da Baía do Rio de Janeiro e da Cidade de São Sebastião". Viu só? É o primeiro mapa português da Baía de Guanabara, portanto um documento
único e importantíssimo.
Foi feito em 1578 (ou 1573), pelo cartógrafo real Luís Teixeira. Êpa! Peraí, nós já ouvimos esse nome. Dê uma
olhadinha no artigo sobre a família de cartógrafos Teixeira Albernaz.
Lembrou? Esse Luís foi o pioneiro da tradição cartográfica de três gerações que registraram os descobrimentos portugueses. Repare na belíssima Rosa-dos-Ventos que era uma de suas marcas
pessoais nas cartas portolanos. A flor-de-lis junto dela indica a direção do vento Tramontana (Norte). Os tons dourados foram obtidos com... tinta de
ouro em pó!
Algumas indicações são reveladoras. Repare na "Aldea de São Martinho"; foi a área designada ao índio Araribóia - batizado de
Martim Afonso de Souza - para acomodar sua tribo e ajudar na defesa cidade. Virou Aldeia do Martinho (corruptela) e deu origem ao bairro de São
Cristóvão. Veja também a primeira referência
cartográfica à Maricá, no litoral norte do estado: logo após Piratininga, encontram-se marcadas as ilhas "demaricahaa", antes da "terra q vai do cabo
frio". A Ilha das Cobras ainda ostenta seu nome original - Ilha da Madeira. Ao lado do Pão de Açúcar, a indicação: terra que vai para São Vicente.
Certos autores relacionam este mapa com as ilustrações do texto de A Utopia (1516), de Thomas Morus, e enxergam nele indícios de que a imagem da
Baía de Guanabara sucedeu a visão de Paraíso Terrestre medieval. Mas isso é papo-cabeça demais pra quem só quer mostrar que mapas (e mulheres!)
belíssimos podem ter muita substância intelectual. Lógico, isso inclui as louras.
Celso Serqueira
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