ARREGAÇANDO A BATINA
"Erotismo e religião se mesclavam nos tempos da colônia, época marcada por um frenesi sexual" - Ronaldo
Vainfas.
Não é de hoje que os padres católicos deixam de cumprir o voto de castidade. Desde o início do período colonial, os
religiosos contribuíram fartamente para o aumento da população, num Brasil em que a carência de habitantes justificava toda aventura sexual.
As transas dos padres seguiam padrões distintos. Entre os mais jovens, havia os que usavam as índias e as negras para "se aliviarem" , como
era costume geral, posto que elas nem gente eram consideradas e "só serviam pra isso". Outros terminavam estabelecendo relações estáveis,
como o concubinato na casa paroquial com as beatas, bastardas ou solteironas que cuidavam de roupas, limpeza, alimentação e... da cama. Daí vinham
filhos e se formavam núcleos familiares informais, que foram muitos.
Tratos ilícitos
Outra forma de aproximação sexual ocorria
quando os religiosos ingressavam em negócios mundanos - comércio, agropecuária, política - para complementar a minguada (na época) renda proporcionada
pela paróquia. Era comum as mulheres vendeiras, negras de tabuleiro, lavadeiras, costureiras e comerciantes de retalho agradarem sexualmente ao patrão
como meio de sobreviverem numa sociedade patriarcal e paternalista.
Os padres mais jovens e bonitos eram assediados e disputados pelas poucas
mulheres brancas, de boa educação e solteiras, as quais se tornavam suas amantes ou esposas. Esses envolvimentos tornaram-se tão comuns que o Santo
Ofício - acredite! - até tentou legitimá-los, mas esbarrou num prosaico problema: havia queixas da desigualdade competitiva entre padres e colonos.
Estes não tinham os dentes bons, conversa agradável, educação e apelos celestiais dos clérigos "tudo de bom". A situação era agravada por
haver poucas jovens disponíveis.
A Igreja teve problemas sérios com o hábito disseminado entre os padres de aproveitarem a devoção das fiéis
para subjugá-las sexualmente. O confessionário, pela sua característica de privacidade, era o lugar mais usado para isso e o abuso de poder
eclesiástico no ato de confissão era conhecido como "crime de solicitação". As mulheres cediam por iniciativa própria, por
"determinação divina" (cantada) ou por serem ameaçadas pelos padres.
Os assédios podiam ocorrer em qualquer parte ou ocasião,
inclusive no leito de morte, como no caso de Luzia de Sousa Vieira: "Casada com um pedreiro na Paraíba, que estando enferma, mandou chamar para
confessa-la o franciscano frei Raimundo de Santo Antonio, o qual solicitou-a para atos torpes e imediatamente teve com ela copula carnal no
leito" (Mott, Luiz - Cotidiano e Vivência Religiosa, 1977).
Bastardos, mas cultos
A formação de famílias por padres tinha
a vantagem de elevar o nível cultural da sociedade, pois a prole dos religiosos recebia educação esmerada no próprio lar. Gilberto Freyre é incisivo
ao descrever a importância dos descendentes de religiosos: "elementos da mais elevada cultura, tornaram-se grandes homens da elite dos séculos
posteriores, constituindo famílias e ocupando lugar de destaque na sociedade brasileira". Não é exagero afirmar que todas as famílias brasileiras
contaram com sêmen eclesiástico em algum momento de sua evolução.
Conhecer a permissividade da Igreja à prática sexual no período colonial
pode ajudar a entender porque a instituição, ainda hoje, tem reações pífias ao desregramento sexual de seus representantes. Com a diferença de que há
400 anos as relações, embora proibidas, eram naturais; hoje, predomina a aberração da pedofilia.
Fonte principal: "Tratos Ilícitos e o Clero
Colonial", Profª. Dr.ª Suely Creusa Cordeiro de Almeida e Gian Carlo de Melo Silva - UFRPE. Celso Serqueira
 | |
|