ROMEU E JULIETA À PORTUGUESA
Dia dos
Namorados se aproximando, as mulheres sonhando e os homens tendo pesadelos com presentes. Apesar do pragmatismo dos tempos modernos, o feitiço do amor
e as loucuras da paixão sempre interessaram à humanidade. Romances fortes como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Paulo e Virgínia ainda fazem
suspirar e vendem milhões de livros. Embora os contos remetam a paisagens da França e Itália, um dos mais trágicos casos de amor ocorreu em Portugal,
no século 14: o drama de Pedro e Inês.
Em 1340, antes de assumir o trono de Portugal, o príncipe Dom Pedro casou com Dona
Constança, de Castela, em núpcias arranjadas pelas suas famílias. Na cerimônia, porém, o futuro rei de Portugal apaixonou-se à primeira vista por
outra mulher, a belga galega* Dona Inês de Castro, dama de companhia da noiva. A paixão fulminante os tornou amantes e tiveram quatro filhos. Após a morte da
esposa, em 1345, os amantes ficaram ainda mais unidos.
A nobreza fingia não ver os casos de adultério masculino, tidos como prova de
virilidade. Entretanto, o pai do príncipe, rei Dom Afonso IV, a corte e o clero se opuseram ao relacionamento de Pedro e Inês. Temiam que um de seus
filhos bastardos viesse a reclamar o trono em detrimento do direito da linhagem legítima. Também eram contra a influência que os três irmãos de Inês,
estrangeiros como ela, exerciam sobre Pedro, o que poderia ser prejudicial a Portugal. Como nada conseguia separar o casal, os opositores planejaram
assassinar Inês.
O crime foi em 1355. Três fidalgos se aproveitaram da ausência de Dom Pedro, que saíra por algumas semanas para caçar, e
degolaram sua apaixonada na Quinta das Lágrimas, onde o casal costumava se encontrar (o local ainda existe e abriga um hotel da cadeia Relais &
Chateaux). Ao retornar e receber a notícia, o príncipe quase enlouqueceu. Quis matar seu pai e avançou com uma tropa para a cidade do Porto, mas na
última hora foi convencido pela sua mãe da inutilidade da vingança: "Não adianta mais, Inês é morta", justificou ela. Vem daí a expressão que ainda
usamos para designar uma situação irremediável.
Dois anos depois, o rei Afonso IV morreu e Dom Pedro assumiu o trono. Sua primeira providência
foi repatriar os assassinos de Inês, refugiados em Castela. Somente Pero Coelho e Álvaro Gonçalves foram capturados, pois Diogo Pacheco fugira para
Aragão. Dom Pedro mandou que ambos fossem torturados durante vários dias e permaneceu todo o tempo na masmorra, apreciando a agonia dos assassinos.
Como etapa final do martírio, ainda vivos, ambos tiverem o coração arrancado.
Em seguida, Pedro mandou exumar a ossada de Inês e a coroou
rainha de Portugal. A cerimônia foi macabra: postado numa liteira de luxo, o corpo semidecomposto de Inês seguiu em procissão desde o túmulo no
Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra (azul no mapa acima), até Alcobaça (verde), muitos quilômetros adiante. No trajeto, toda a nobreza e o clero, que
repudiaram o romance, foram obrigados a reverenciar o esqueleto. Na cerimônia de coroação, Dom Pedro I obrigou os presentes a se ajoelharem diante do
cadáver e beijarem os ossos da mão. Estava vingado!
Pedro foi rei de Portugal entre 1357 e 1367. Adorado pelo povo, fez muitas obras,
reorganizou as finanças do país e aplicou a lei com rigor, chegando a açoitar pessoalmente os ladrões e assassinos mais cruéis. Era chamado de "Pedro
I, o Justiceiro" e gostava de fazer bodos - banquetes nos adros das igrejas para distribuir alimentos e dinheiro aos pobres.
Os túmulos de
Pedro e Inês estão colocados um diante do outro, no Mosteiro de Alcobaça, e possuem belas tampas mandadas esculpir por Dom Pedro. Seu último desejo
foi ser sepultado numa posição que lhe permitisse, ao ressuscitar para o Juízo Final, ver a amada Inês acordando de seu túmulo. *agradecimento a Antônio Carlos de Castro
[ www.genealogiacastro.cjb.net
] pela correção
Celso
Serqueira  | |
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